Roda de Conversa sobre Racismo Religioso

Por Leonardo Silva

30 de Abril de 2026 – última atualização 12 de junho de 2026

Organizamos como parte das ações do mês de abril uma roda de conversa com representantes de entidades religiosas e sagrados indígenas. Foi realizada no dia 30 de abril de 2026, das 15h às 18h, na Praça da Educação – UFPB/PB, em João Pessoa. Dialogamos sobre racismo religioso, resistência e liberdade de crença na cidade de João Pessoa-PB.

Tivemos a participação de representações de conselhos de promoção de igualdade racial, pessoas de comunidades tradicionais e de terreiros e associação de pessoas indígenas no contexto urbano na cidade de João Pessoa-PB.

Após uma rodada de apresentação, durante a execução da atividade, foram compartilhadas experiências concretas que evidenciam a gravidade do racismo religioso nos territórios e comunidades periféricas da cidade de João Pessoa. Entre os principais pontos discutidos, destacou-se a violência praticada contra comunidades de terreiro, especialmente por grupos ligados ao tráfico, que têm restringido a realização de cultos e práticas religiosas. Foi apresentado como caso emblemático o ataque ocorrido em 13 de setembro de 2025 contra o terreiro liderado pelo Babalorixá Pai Ledi D’Azauani, no Bairro das Indústrias, em João Pessoa, que permanece sem responsabilização efetiva até o momento. 

Também surgiram reflexões sobre o racismo religioso em espaços públicos e institucionais, com ênfase na dificuldade de formalização de denúncias, na ausência ou insuficiência de canais de acolhimento e na fragilidade das respostas institucionais. No campo da educação, foram relatadas barreiras na implementação das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, incluindo episódios de perseguição a docentes e resistência por parte de gestões escolares com posicionamentos fundamentalistas.

Com a sistematização das falas, é comum a evidência de que o racismo religioso se manifesta de forma estrutural e institucional, afetando diretamente o exercício da liberdade de crença e a dignidade das comunidades tradicionais. Ao mesmo tempo, a roda revelou a potência da articulação coletiva como estratégia de enfrentamento, destacando a importância da construção de redes de apoio, incidência política e fortalecimento institucional.

Como resultado do processo, foram construídos encaminhamentos voltados ao enfrentamento da violência contra casas de axé, incluindo o desenvolvimento de estratégias de proteção, denúncia e apoio, bem como a promoção de ações educativas e articulação com órgãos públicos. Também foi proposta a criação de uma comissão representativa das religiões de matriz africana, especialmente no contexto da Lei da Capelania, garantindo participação nos espaços de decisão. Outro ponto relevante foi a necessidade de incentivar a institucionalização dos terreiros, assegurando reconhecimento formal, acesso a políticas públicas e maior visibilidade.

Nos desdobramentos, destacam-se a articulação para participação em reunião com a Defensoria Pública e o IFPB, a construção de propostas para o IV Encontro Estadual de Lideranças Negras da Paraíba (que foi realizado no final de maio de 2026, no Centro de formação Elizabeth e João Pedro Teixeira, em Lagoa Seca-PB), a realização de ações formativas em espaços educativos formais e não formais, a criação de uma comissão permanente de acompanhamento, o fortalecimento de parcerias com o Ministério Público e a necessidade de desburocratização dos processos de reconhecimento dos terreiros.

A proposta da roda foi construída previamente a partir da identificação de demandas recorrentes relacionadas à violência contra comunidades de terreiro, à dificuldade de acesso a mecanismos de denúncia e à baixa efetividade de políticas públicas voltadas à promoção da igualdade racial e religiosa. Na metodologia para a atividade, considerou-se o diálogo e a escuta, através da troca de experiências e da construção coletiva de encaminhamentos.

Foram definidas previamente perguntas norteadoras e mobilizados diversos segmentos sociais e institucionais, garantindo diversidade de vozes e experiências. Houve uma exposição dialogada sobre a liberdade de crença e os ataques sofridos em locais sagrados e de cultos de comunidades tradicionais e de terreiros na cidade de João Pessoa-PB. Depois trabalhamos duas questões que serviram como norteadoras para as contribuições das pessoas participando: 1 – o que está faltando para a efetivação do direito à liberdade de crença?; e 2 – quais são as principais evidências do racismo religioso na atualidade?

A atividade contou com a participação de aproximadamente 16 pessoas, incluindo representantes de entidades religiosas de matriz africana, sagrado indígena, mulheres de terreiro, pesquisadores(as), representantes da capoeira, membros do Conselho de Promoção da Igualdade Racial, coletivos de mulheres, professores(as), educadores(as), militantes de Direitos Humanos, advogados(as), assistentes sociais, artistas, representantes de comunidades tradicionais (como Barra de Mamanguape), representantes do movimento estudantil (como a Frente Negra Unificada da UFPB), além de integrantes de coletivos de proteção à população em situação de rua e da educação do campo.

Atuaram como facilitadores na roda de conversa Leonardo Silva, do Observatório Paraibano Antirracismo, como mediador, Marli Soares e Renálide Carvalho, da Marcha da Negritude Unificada, que orientaram o debate a partir das questões centrais. A metodologia adotada permitiu a livre expressão de todas as pessoas que participaram, promovendo um ambiente de construção coletiva.

A atividade demonstrou impacto significativo ao promover a visibilização de violações de direitos, fortalecer vínculos entre diferentes atores sociais e institucionais e produzir encaminhamentos concretos para a incidência política. A roda reafirma a importância de espaços de diálogo como ferramenta estratégica para o enfrentamento ao racismo religioso e para a construção de políticas públicas comprometidas com a equidade racial e a liberdade religiosa.

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